Lucrécio é esta grande coisa obscura: Tudo. […] Viu tantos homens que eles acabaram por se confundir em sua pupila e que essa multidão se tornou para ele fantasma. Chegou a este excesso de simplificação do universo que é quase seu desvanecimento. Sondou até sentir flutuar a sonda. […] Talvez nos juncos tenha falado com Oannès, o homem-peixe da Caldeia, que tinha duas cabeças, em cima uma cabeça de homem, em baixo uma cabeça de hidra, e que, bebendo o caos pela goela inferior, o vomitava de volta à terra pela boca superior, em terrível ciência. Lucrécio possui essa ciência. Isaías confina aos arcanjos, Lucrécio às larvas. Lucrécio torce o velho véu de Ísis embebido na água das trevas e com ele exprime, ora em torrentes, ora gota a gota, uma poesia sombria. O ilimitado está em Lucrécio. Em certos momentos passa um poderoso verso espondaico quase monstruoso e cheio de sombra […]. Aqui e ali uma vasta imagem do acoplamento se esboça na floresta […]; e a floresta é a natureza. Esses versos são impossíveis para Virgílio. Lucrécio dá as costas à humanidade e olha fixamente o Enigma.
Victor Hugo
